São João entre a fiscalização de recursos e a valorização da festa: especialista defende políticas para preservar tradição junina

  • 23/06/2026
(Foto: Reprodução)
Especialista defende políticas para preservar tradição junina Ligada à construção histórica e social da Bahia e demais estados do Nordeste, a celebração do São João é alvo constante de questionamentos que apontam a desvalorização das tradições. Em meio a isso, os cancelamentos de festejos juninos em cidades do interior baiano e a ausência de atrações como Flávio José nas grades anunciadas pelos municípios do estado tensionam a relação do povo com a festa. Cidades como São Francisco do Conde, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), São Desidério, no oeste do estado, e Ilhéus, na região sul, anunciaram o cancelamento dos festejos juninos ou suspensão de contratos ainda no início de junho. No caso de Ilhéus, onde a festa foi cancelada, a justificativa apresentada pela gestão municipal foi a impossibilidade de concluir a organização do evento diante dos "rigorosos trâmites burocráticos exigidos para garantir a segurança jurídica das contratações em tempo hábil". Eu Te Explico #185: forró - o ritmo com influências indígenas, africanas e europeias, codificadas por Luiz Gonzaga Investigação revela esquema que superfaturou milhões em cachês de artistas pagos com verba pública na Bahia O comunicado se referia à Nota Técnica Conjunta nº 01/2026, assinada pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-BA) e pelo Tribunal de Contas dos Municípios (TCM-BA), que estabelece controles de gastos e outras diretrizes para orientar prefeituras baianas na contratação de artistas. São João da Bahia Antônio Queiroz/GOVBA O documento foi base para as recomendações feitas pelo MP-BA às gestões municipais quanto ao cancelamento de contratos com supercachês e irregularidades nos processos. O cenário de cancelamentos de atrações e festejos se somou ao descontentamento de alguns artistas com a redução dos valores pagos. 📲 Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp do g1 Bahia A situação ganhou maior repercussão com Flávio José, que anunciou que não faria shows na Bahia após a recomendação do MP-BA quanto ao valor dos cachês dele para apresentações no estado. Para o artista, a situação foi mais uma forma de desvalorização de artistas ligados aos ritmos tradicionais do período junino, como o forró, o baião e o xaxado. Flávio José diz que não fará shows no São João da Bahia após recomendação do MP sobre redução de cachês Reprodução/Redes Sociais Ao g1, o professor doutor em História Social e pesquisador especializado em patrimônio cultural, José Roberto Severino, afirmou que uma gestão pública participativa e a estruturação de um plano de cultura são caminhos para a preservação do São João no estado. Para ele, a festa transcende os eventos e é necessário realizar a proteção do patrimônio imaterial, que é parte do período junino. "A patrimonialização cria o que a gente chama de salvaguarda de uma determinada manifestação, portanto ela não pode mais ser descaracterizada. Esse é o desafio", afirma. Severino avalia que, ao longo dos últimos anos, os festejos juninos têm sido instrumentalizados arbitrariamente nas cidades baianas, o que dificulta a realização de processos que mantenham as características tradicionais da festa. "Acho que o que está em questão com relação ao São João é que [...] a gente tem uma orientação do Plano Nacional de Cultura de que os municípios tenham planos de cultura e que, portanto, os festejos ligados à área — e às vezes o São João é o único festejo de uma cidade — não sejam feitos de maneira que venham a se tornar apenas um evento". A introdução das atividades tradicionais da época, como as quadrilhas juninas em escolas e a valorização de sanfoneiros e bandas de pífano durante as festas de São João, pode fazer parte de políticas públicas. "A festa de São João poderia ter uma relação maior com a formação de pessoas, [...] os sanfoneiros poderiam ser o centro da festa e não uma banda qualquer contratada por não sei quantos milhões, [valor] às vezes até maior do que o orçamento público". Modernização x Perda dos símbolos tradicionais A modernização dos festejos é um processo normal com o passar do tempo, mas não deveria significar o apagamento histórico da relação entre o São João e as cidades. Na opinião de Salua Cheuqer, professora que já trabalhou na curadoria de uma série de eventos juninos no estado, é importante proteger os significados da festa, que é cheia de símbolos. Ela aponta que lembrar as raízes da comemoração, que nasceu em áreas rurais do interior e está intrinsecamente ligada à agricultura, é necessário para evitar a descaracterização do evento. "A festa saía de uma casa de família para outra e enchia a cidade de música, fogos, bandeirolas, [celebrando] a fartura da agricultura. São inúmeros símbolos". Nesse sentido, ela defende que conhecer e fortalecer os significados das bandeirolas, da fogueira, das bandas de pífano e dos sanfoneiros — mesmo diante das modernizações — pode ajudar a proteger a identidade dos festejos. Leis de proteção e fomento Leis como a nº 14.900, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2024, e a nº 13.368, sancionada pela Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) em 2015, são ferramentas que buscam valorizar o São João. A primeira reconhece as quadrilhas juninas como uma manifestação da cultura nacional, enquanto a segunda estebelece normas para a promoção da identidade cultural regional na Bahia. A norma estadual, conhecida como Lei da Zabumba, preza pelo fortalecimento de artistas locais em eventos que representam a cultura baiana. Diante disso, o texto da lei prevê que 60% das contratações de artistas de grupos musicais devem priorizar profissionais que simbolizem a cultura local. No caso do São João, a lei reconhece o ritmo forró como uma das expressões consagradas e parte da cultura baiana. Ainda assim, artistas e público não veem efetividade nas determinações previstas em lei. O g1 entrou em contato com a Superintendência de Fomento ao Turismo (Sufotur) para entender como as leis de fomento e proteção das tradições juninas têm sido aplicadas no estado, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem. 'Luar do Recôncavo' vence campeonato de quadrilhas juninas em Salvador Sufotur Apesar da existência de leis que reconhecem a importância imaterial do período junino, este tipo de legislação compõe uma dimensão abstrata da efetiva proteção de uma manifestação cultural. É apenas a partir do registro ou tombamento de um aspecto imaterial que é possível, de fato, evitar a descaracterização de um aspecto cultural. Para José Roberto, trazer a questão ao debate público é essencial, uma vez que há um interesse claro da população em manter aspectos tradicionais da festa. O debate é também um caminho para discutir a longevidade de quadrilhas juninas, sanfoneiros e bandas de pífano — manifestações que têm enfraquecido ao longo dos anos. "Isso está formando novos músicos? Novas quadrilhas?", indaga o historiador, de forma retórica. "O gestor da cultura também precisa ser um curador e fazer boas escolhas. E essas escolhas passam pela inclusão do artista local, grupos locais. [...] Valores muito altos concentram o gasto em uma coisa só. Se você tem gastos mais bem distribuídos, [é possível] pagar bons cachês para pessoas da casa", pontua. Na Bahia, a fiscalização desses gastos é encabeçada pelo Ministério Público, que estima ter garantido uma economia de mais de R$ 20 milhões com a redução de cachês dos artistas em shows firmados no estado em 2026. Já o direcionamento dos recursos disponíveis — se vai para artistas pequenos ou grandes, representantes dos ritmos tradicionais ou de gêneros musicais diversos — segue em debate por mais um São João. LEIA TAMBÉM: Vai curtir o São João? confira horários, preços e destinos de bate-volta em Feira e região Justiça determina que prefeitura publique contratos de artistas do 'Ita Pedro' e detalhe origem dos recursos Capelinha do Forró é grande vencedora do Campeonato de Quadrilhas Juninas da Bahia 2026 Veja mais notícias do estado no g1 Bahia. Assista aos vídeos do g1 e TV Bahia 💻

FONTE: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/06/23/sao-joao-entre-a-fiscalizacao-de-recursos-e-a-valorizacao-da-festa.ghtml


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